sexta-feira, 1 de abril de 2011

Abre meus olhos (open my eyes)

                 No princípio, antes de mais nada existir, Deus criou o ser humano a partir do lodo da terra. Podemos encontrar isso mesmo nas primeiras páginas do Génesis. Agora, Jesus procura, de certa forma, dar continuidade renovada à criação através da cura do cego com lodo da terra. No entanto o gesto de Jesus, assim como as leituras que a liturgia nos propõe neste domingo da alegria vão muito além da simbologia da criação.
                Em primeiro lugar é preciso ter em conta que não era o cego que não conseguia ver. Somos nós que estamos cegos consoante a dose que nos toca. Ou não queremos ver, ou não conseguimos porque nos falta alguma coisa ou simplesmente não vemos. A importância renovada pertence então à necessidade que temos de olhar com olhos de quem perscruta e não de quem vê. Na primeira leitura encontramos essa dimensão como a atitude de Deus, que nós precisamos de adoptar, por oposição à atitude de Samuel que representa a nossa própria visão e forma de ver. Deus não olha para as aparências mas sim para o coração. Em consequência, foi escolhido para estar à frente do povo da salvação o filho mais novo, pastor, que nem sequer estava em casa e ninguém dava por ele (David). Quando pensamos que o olhar de Deus está sempre voltado para o outro porque eu não tenho qualidades suficientes, aí somos surpreendidos por um olhar penetrante dentro do nosso interior que nos abrasa e nos pede responsabilidades. Mas esta transformação só se pode dar por intermédio de Jesus Cristo, como nos fala S. Paulo na segunda leitura, uma vez que outrora éramos trevas, mas agora, depois de Jesus Cristo, somos chamados a viver na luz e a não mais sermos cegos de nascença.
                Para a mentalidade semita a causa da deficiência em algumas pessoas era o pecado cometido pelo próprio ou por alguém da geração anterior da família, sendo que  cegueira da personagem do evangelho era vista como castigo por algum pecado cometido no seio das suas gerações. Mais uma vez Jesus provoca uma revolução copernicana e mais uma vez se escancaram as portas da nossa perplexidade, alongando o horizonte das nossas limitações visuais e interpretativas, pois Jesus transforma a deficiência numa oportunidade nova para a abundante graça de Deus. De um cego de nascença, que é cada um de nós, Jesus retira um verdadeiro seguidor e discípulo, não antes de exigir da sua parte um cumprimento de uma tarefa. Jesus ordena que se lave na piscina de Siloé, a piscina do enviado, pedindo o cumprimento da nossa parte.
                Os pais do cego não se comprometem, atiram a responsabilidade para o filho ante as perguntas intimadoras dos fariseus. Resta-nos optar por uma destas atitudes, somos pais que acham que já vêem o suficiente ou filhos cegos que querem ver? É que passar, na lógica Paulina, das trevas para a luz, como fez o cego, não é somente deixar cair as escamas que atropelam os olhos, implica, antes de tudo, como enviados, acender a chama baptismal que recebemos na nossa piscina de enviados. Só aí nós encontramos as indicações que nos permitem viver na bondade, na justiça (fidelidade) e na verdade.       
                 

Sem comentários:

Enviar um comentário